Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

damas



Sexta-feira, 12.08.05

Retrato de Família – 6

Por Ruaz Ramos

Nome: Afonso Fernandes

Afonso Fernandes-blog.jpg

Nome: Afonso Fernandes

Local do Nascimento: Pampilhosa da Serra

Data do Nascimento: 25-5-1919

Profissão: Reformado

Estado Civil: Casado

Filhos: Uma, do sexo feminino

Currículo Damista:

Campeão Nacional Equipas - Internacionais (3)

Campeão Distrital -  INATEL (3)

Monitor e Seccionista -  EDP

Monitor e Seccionista - Grupo Desp. Operário

Antigo Tesoureiro da FPD

Num golpe de sorte, adquirimos inesperadamente um novo quadro para a nossa galeria. Visitávamos o seu território, o Clube Desportivo Operário, quando o encontrámos ali à mão. A conversa brotou, natural e fluida, sem que previamente tivesse existido o objectivo da elaboração de uma entrevista. Mas Afonso Fernandes não conseguia calar as recordações de uma infância longínqua e de uma adolescência atribulada. E  não perdemos a oportunidade :

Penso que o país atravessava momentos difíceis no seu tempo de criança…

Pode dizê-lo. Os meus pais eram muito pobres e tinham doze filhos. Combinaram com o dono de um rebanho de cabras que eu iria trabalhar para ele à troca de uns patacos, com a condição de me mandar estudar. Tirei a 2ª classe e gostava muito de estudar. Mas, como detestava a província, meti uma cunha ao namorado de uma irmã para que me trouxesse para Lisboa. Consegui autorização e lá vim para a capital, com 8 anos de idade. Empreguei-me numa mercearia da Praça da Ribeira como marçano. Recordo-me de ir no Rossio, carregado com um fardo de bacalhau, quando rebentou uma revolução. No meio da confusão senti pegarem no embrulho e gritarem-me que me resguardasse numa escada. As balas zumbiam e faziam ricochete no chão. Uma semana depois, acabada a revolta, fui à esquadra do Rossio procurar pelo meu bacalhau. Estava lá! Fora um polícia que me ajudara naquele dia. Entretanto regressei à terra para estudar e retomei a escola, que ficava a uma hora de caminho. Sempre a trabalhar no campo, era o melhor aluno da turma. Estudava muito e como não tinha dinheiro a professora ofereceu-me o livro de Leitura e o de História. Aos 12 anos tirei a primária com distinção e a professora ofereceu-se para me pagar metade dos estudos, para eu prosseguir. Mas nem assim os meus pais podiam e a minha mãe decidiu que eu iria para padre. Em primeiro lugar porque, sendo muito religiosa, seria uma grande alegria e por outro lado porque era uma forma de eu poder estudar gratuitamente. Disse-lhe que não queria e ela fartou-se de chorar. Foi então que o pároco apareceu lá em casa, para falar comigo e eu disse-lhe que não queria ir para o seminário porque o mundo dos padres era diferente do dos outros homens e que eu não queria nem prejudicar-me nem prejudicar a Igreja. Ele ouviu-me, atentamente e disse à minha mãe que eu sabia o que queria e que tinha grande maturidade.

E como conseguiu vir novamente para Lisboa onde tem passado o resto da vida?

Com 14 anos de idade decidi emancipar-me e voltar. Peguei no Diário de Notícias e vi um anúncio a pedir rapaz para Depósito de Tabaco. A dificuldade de emprego era grande. Os bancos de jardim estavam pejados de desempregados e quando cheguei ao local indicado, mais de duzentos candidatos esperavam ser chamados. Vi chegar um tipo com ar de patrão e decidi abordá-lo: Olhe, eu sei que há ali rapazes com melhor aspecto do que eu; mas eu tenho mais força que eles e preciso muito deste emprego. O homem olhou-me de alto a baixo e perguntou - me a idade. Dezoito anos, menti eu. E quanto é que  pretende ganhar? O que valer, respondi. Quando chegar a altura de me pagar falamos. Sorriu, chegou-se à porta da rua e gritou: podem-se ir embora que já estou servido. Estive lá dez anos e fiz de tudo: Atendedor, pracista, distribuidor e cobrador! Depois tive uma loja de artigos usados que vim a  transformar em Tabacaria e Salão Cabeleireiro. E ainda fiz uns biscates como "segurança"…

E o prazer pelo jogo das  Damas, como surgiu?

Quando regressei à capital, um dos meus irmãos que cumpria serviço militar na Ajuda, ensinou-me  a jogar. Eu fiquei imediatamente a gostar das Damas e comecei a ler o Vamos Decifrar. Quando passava por qualquer tasca espreitava sempre a ver se havia alguém para me entreter. Fui dominando o Tabuleiro e embora não tivesse muita teoria tinha boa visão. Aos fins de semana comecei a procurar na Brasileira e no Martinho os bons jogadores. O meu primeiro encontro foi com o Pires Magrinho que se auto - intitulava de divino mestre. Estava ele na Brasileira  com o Dr. Orlando Lopes a analisar um jogo quando me atrevi a sugerir determinado lance. O Magrinho olhou para mim e desafiou-me a disputar um café, bagaço e barato. Aceitei e venci por 8-0. Cheguei a ficar em 3º lugar num torneio, com os mesmos pontos que o OAL e o Igrejas. Depois comecei a jogar com os bons jogadores do Clube dos Anjos e tornei-me monitor e Seccionista do Clube da EDP e daqui do Operário.  Aprendi as Internacionais a ver jogar no Café Ribatejano e a treinar contra mim mesmo. Ainda hoje, embora já acuse a idade, ainda faço uma perninha em qualquer uma das modalidades.

Qual é para si o melhor jogador da actualidade?

Actualmente existem óptimos jogadores: O Medalha da Silva, o Joaquim Bravo, o Silva Pereira, o Veríssimo Dias; mas a ter de escolher um, o melhor é sem dúvida o Dr. Vaz Vieira.

Ainda costuma organizar  torneios. Qual é o segredo que o leva a  conseguir apoios?

Escrevo e apareço. Quem quer vai e quem não quer manda.  Já consegui apoios da Câmara, de Juntas de Freguesia, do Governo Civil, do Instituto de Desporto, da INATEL, e de diversas empresas. Mas o torneio do Operário do passado mês fechou o meu ciclo como organizador.

A sua família vê com bons olhos a sua fuga para as Damas?

Nem por isso. Sabe, sou casado com a minha mulher vai para 60 anos; mas por causa do jogo, também do das Damas, estive separado dela 16. Depois voltei e prometi que seria mais presente. Hoje, ela encontra-se doente e necessita de mais assistência. Eu também não estou famoso e vejo-me, por tudo isto, obrigado a abandonar o cargo de Seccionista.

Em todos estes anos de actividade damista deve ter tido episódios interessantes…

Imensos. Olhe, quando estava na Tabacaria passava a vida com o Tabuleiro em cima do balcão e jogava com quem me aparecia. Uma das minhas vítimas era um guarda fiscal a quem dava grandes tareias e que me disse que havia de lá levar um jogador a quem eu não meteria a mão no prato. E um dia cumpriu com o prometido, tendo  aparecido com o tal indivíduo chamado de Alfredo. Puxei do Tabuleiro e começámos a partida. Em determinado momento verifiquei que tinha o jogo perdido mas que o adversário fingia não ver. Deixou, propositadamente, perder posição para que eu ganhasse. Fingi que não percebera o truque e só lhe ganhei muito mais adiante. Fomos para o 2º jogo e cada um continuou a representar o seu papel; ele a facilitar-me o ganho e eu a fingir que só muito tarde o conseguia ver.… Terminada a partida diz-me o adversário: você joga bem… Mas olhe, faço consigo uma cervejinha  em como não me ganha 2 jogos antes de eu ganhar 5. Muito bem, disse eu; vamos aqui ao lado, à tasca. Entrámos os três e mandámos vir as cervejas. Aí, o nosso amigo começou a jogar o que sabia e ganhou logo o 1º jogo. A seguir ganhei eu. Nova vitória dele e o meu 2-2. Bom, disse eu, já ganhei a cerveja! Responde ele: Você ganhou-me porque há bocado me enganou a fingir que jogava menos. O senhor não devia ter aceitado partido porque joga tanto como eu. Sorri e disse-lhe : Eu não pedi partido; mas costumo aceitar o que me dão. E enquanto que eu lhe disse chamar-me Afonso Fernandes e chamo mesmo, a mim disseram-me que se chamava Alfredo e o senhor chama-se Carlos Alberto e por acaso é o campeão de Lisboa. Carlos Alberto apertou-me a mão e disse-me: - Ganhou bem e quem paga estas cervejas é aqui este tipo que me disse que você era um pexote!  E  assim foi…

PS: Afonso Fernandes só não continua no activo porque tem de cuidar da esposa que se encontra muito limitada do ponto de vista de saúde. Quando agora lhe pedimos para nos dispensar uma foto sua, foi com a condição de a irmos buscar a sua casa e jogar uns joguinhos, para matar saudades... E fez um excelente resultado!

Autoria e outros dados (tags, etc)

por lusodama às 00:05



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

Pesquisar no Blog